ANO 4 - NÚMERO 43 - FEVEREIRO/2011
COLUNA NACIONAL
Na mesa com Titanic Thompson
Histórias do homem que, entre outros golpes, passou a perna em Al Capone

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O poker, um século atrás, era um jogo completamente diferente daquele que conhecemos hoje. Se o Texas Hold’em e o Omaha são agora, de longe, as modalidades mais populares, naquela época jogava-se o 5 Card Draw e o 5 Card Stud – conhecidos no Brasil como ”Poker Fechado” e “Stick Poker”, respectivamente. E sabe aquelas situações em que alguém aposta 70 reais, você só tem 50 reais e, então, vai para o all in? Esqueça isso. Muitas mesas adotavam as western rules, as “regras do oeste”. Ou seja, o cacife não limitava-se às fichas que cada jogador possuía em cima da mesa, mas sim à profundidade de seus bolsos. O sujeito apostou 3.000 reais e você só tem 1.000 reais em ficha? Corra ao caixa eletrônico ou ponha a chave da moto na mesa. Senão, vai ter que largar as cartas. Mesmo que sejam quatro ases.

Foi neste período em que viveu o americano Alvin Clarence Thomas (1892-1974), mais conhecido pelo seu nome “artístico”, Titanic Thompson, um dos maiores apostadores e vigaristas da história dos Estados Unidos. A origem de seu apelido é interessante. Na primavera de 1912, mesmo ano em que o transatlântico Titanic afundou, matando 1.517 pessoas, Alvin estava jogando sinuca num clube em Joplin, Missouri. Depois de ganhar 500 dólares de um parceiro chamado Snow Clark – valor que hoje seria o equivalente a 11 mil dólares –, Alvin deu a ele a chance de recuperar o dinheiro. “Apostei 500 dólares que eu poderia pular a mesa de sinuca sem enconstar nela”, escreveu Alvin numa crônica publicada na revista Sports Illustrated, em 1972. “Coloquei um velho colchão do outro lado da mesa, corri e mergulhei. Enquanto eu contava o dinheiro, alguém perguntou a Clark qual era o meu nome. ‘Deve ser Titanic’, Clark respondeu. ‘Ele afunda todo mundo.’ Desde então, ficou Titanic.”

Segundo o seu biógrafo, Kevin Cook, autor de Titanic Thompson: O Homem que Apostava em Tudo, ele ganhou e perdeu milhões de dólares jogando cartas, dados, sinuca e golfe. Quando Titanic derrotava alguém no golfe, oferecia ao perdedor a chance de recuperar o seu dinheiro numa revanche – desta vez, Titanic jogando com a mão esquerda. Naturalmente, Titanic era ambidestro. “Ele gostava de suas mulheres jovens e bonitas, seus carros grandes e velozes, seus patos ricos e ingênuos”, escreveu Cook.

O poker era uma das atividades preferidas de Titanic. Segundo Cook, ele calculava como um computador as probabilidades do jogo. Além disso, “trapaceava e marcava cartas com uma habilidade inacreditável”. Gângsters como Al Capone e Arnold Rothstein, e grandes jogadores como Doyle Brunson, Johnny Moss e Amarillo Slim, foram algumas das personalidades que se sentaram à mesa com Titanic. Em 1928, ele esteve envolvido no high stakes que resultaria na morte de Rothstein, um dos principais chefes do crime de Nova York. Segundo a lenda, Rothstein perdeu 320 mil dólares numa maratona de três dias de jogo. (Em valores atualizados, cerca de 4 milhões de dólares.) No entanto, recusou-se a pagar a dívida, alegando que o jogo fora armado. Pouco tempo depois, Rothstein seria assassinado.

A passagem mais interessante do encontro entre Titanic e Al Capone – talvez o mais temido criminoso dos Estados Unidos naquele momento – deu-se após um jogo de poker, na década de 1920. Ao sair de uma partida, já de manhã, os dois caminhavam juntos em direção ao carro de “Scarface” Al. Quando passaram por uma barraca de frutas, Titanic comprou um limão e veio com a proposta: “Aposto 500 dólares que consigo arremesar um limão por cima do telhado daquele hotel.” O limão que ele comprara estava recheado de balas de revólver, para deixá-lo pesado e possibilitar um arremesso mais longo; Titanic combinara o golpe com o quitandeiro no dia anterior. Al Capone aceitou o desafio. “Mas espere um segundo”, disse o gângster. Ele comprou um novo limão, espremeu e, sorrindo, passou-o a Titanic. “Jogue este.” Titanic não esperava por isso. A solução foi improvisar. Titanic tomou distância, correu e arremessou a fruta. Mas não o limão espremido de Al Capone – o qual segurou e escondeu na palma da mão –, e sim o pesado. Enquanto os dois observavam o limão voar por cima do hotel, Al Capone assobiou e disse: “Você é um filho da mãe versátil...” Abriu a carteira, então, e passou os 500 dólares justos para Titanic – sem suspeitar que caíra num belíssimo golpe do amigo.

 

 

 

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